|
Entrevista com Miriam 16/10/2002
Entrevistadora
– Fale um pouco sobre sua experiência com
Terapia Artística.
Paciente - Eu sempre tive um sonho: pintar. Mas,
um sonho é um sonho. Outra coisa é ter colocado
a mão na massa. Na realidade, eu descobri que por a mão
na massa não é exatamente pintar. É estar
lá, no meio das tintas, envolvida com as cores, com todo
o processo. As coisas acontecem muitas vezes sem termos muito
controle. Temos um certo controle quando decidimos que tintas
usar ou o que misturar e quando pensamos em tomar uma direção.
Mas, sobre o processo de desenvolvimento não temos controle.
Acho que este aspecto do trabalho artístico é muito
rico porque é exatamente como se dá na vida. Eu
vivo a vida e vejo acontecer assim: tenho um foco, um projeto,
mas “como” chegar a esse projeto jamais é da
forma que eu estabeleci porque a cada passo descubro que há
algumas coisas que nunca imaginei que pudessem ser necessárias.E
também eu nunca posso imaginar como vou me relacionar com
o que surge sem previsão. O projeto inicial pode se realizar,
mas nem sempre como o idealizamos. Ele vai ter a cara do que fizemos
no mundo. Às vezes o adoramos, às vezes o odiamos.
Entrevistadora – Como você começou
a pintar?
Paciente – Um dia eu fui ao local onde
fazemos Terapia Artística, encontrar-me com uma pessoa
que trabalha com floral. Eu sempre passava e via um grupo de pessoas
pintando e aquilo começou a me estimulou a curiosidade
e o desejo que eu já tinha de pintar, como falei agora
pouco. Perguntei preço, horário, mas os grupos estavam
lotados. E eu lá olhando. Até que um dia apareceu
vaga num horário possível e eu comecei a fazer,
a trabalhar num processo que, para mim, era totalmente desconhecido.
Eu conhecia a antroposofia médica, mas não a Terapia
Artística. Foi um processo novo, mas eu comecei prazerosamente.
Acho que tem um caminho que o terapeuta artístico vai dando,
dependendo de cada pessoa. Um caminho semelhante para todos, mas
também com passos muito individuais. Ele vai olhando a
necessidade de cada um. Eu tinha a ansiedade de pintar, de poder
expressar coisas muito concretas, paisagem, flores, mas no início
eu tive mesmo que lidar com esse conteúdo sem forma, só
com as cores. Quando eu falo conteúdos sem formas estou
até falando de conteúdos meus, internos, sem forma.
Até o momento em que tudo começou a fazer sentido:
isso dava uma organização e eu não precisava
questionar tanto, me preocupar se ficaria bonito ou não.
Mas foi rápido, pois rapidamente entendi qual era o processo
e pude usufruir o caminho e ver que nele pode haver coisas mais
interessantes do que eu pintar um quadro maravilhoso, idealizado.
Como também lido com essas questões na vida, em
termos profissionais, o processo artístico ganhou uma dimensão
lúdica para mim. Teve um outro lado extremamente lúdico
que foi poder olhar as cores no céu, no mar, na natureza,
Houve um enriquecimento. Eu fiquei mais rica, o mundo ficou mais
rico. A minha pressa de pintar se tornou relativa porque eu já
estava me enriquecendo bastante. No início, eu também
lidei com um ideal de pintar e ficava com uma certa “inveja”
de ver pessoas que têm pinceladas maravilhosas, que produzem
coisas maravilhosas. Mas, descobri que o movimento de estar envolvida,
pintando, por si só, é algo muito prazeroso. Só
deixa de ser prazeroso quando mexo com conteúdos
meus. Mas, sempre digo que é como se eu estivesse fazendo
uma meditação porque fico muito envolvida. Por mais
que converse com as pessoas que estão no grupo ou mesmo
quando sou direcionada pela pessoa que coordena, eu sinto que
é um tempo meu, muito meu. Este processo é também,
um, mergulho muito grande. Às vezes é aflitivo porque
dá a impressão de que não darei conta de
mim mesma, de que não vou dar conta daquilo que estou fazendo.
E também porque, como aquilo é minha cara, vejo
ali o movimento de uma energia muito grande que às vezes
não sei organizar. Quando fiz as mandalas, o processo foi
interessante. Um dia fui chorando até
em casa porque a mandala me mobilizou de tal forma, que eu estava
vendo ali a minha vida. Nossa! Tanta coisa acontecendo e era como
se eu não tivesse controle. E eu não tenho mesmo.
Eu posso dar uma forma, mas eu não tenho esse controle
da vida e jamais terei. Assim, esse tempo da pintura também
pode nos ajudar a encontrar as resoluções que a
vida pede. Dar tempo ao tempo: esperar secar, compreender que
uma forma se ajeita a partir dela mesma, independente da forma
que eu quis dar e vê-la se transformar fora de mim, a partir
de mim. Minha ação no mundo é relativa. Compreender
esse aspecto do movimento da vida no movimento da pintura foi
muito rico para mim.
Entrevistadora – Fale mais sobre como
foi fazer a série de mandalas.
Paciente – Exigiu muito, muita força
de vontade. Acho que também na vida é assim. Quando
nos propomos um projeto, por mais que o desejemos, há momentos
nos quais nos cansamos, queremos desistir. E isso exige um foco.
Fazer o ciclo completo das mandalas foi um desafio porque exigiu
muito esforço para eu me manter no processo. Fiquei um
ano fazendo mandalas. Em alguns momentos foi prazeroso, em outros
não. Houve momentos que eu gostei do que fiz, e momentos
em que detestei o que fiz. Mas, me senti muito bem quando pude
ver, depois de um tempo, o trabalho pronto, numa exposição
na qual as mandalas de várias pessoas estavam expostas.
Quando ficamos mais distantes daquilo que vivemos, podemos olhar
com outros olhos, podemos até nos perdoar.
Olhar e dizer: foi o que foi possível; é assim;
não dava para ser de outra forma; é o que eu era
naquele momento. Isso dá mais paz, mais tranqüilidade
e uma aceitação também. Como a mandala, por
si só, é um elemento organizador, esse período
de um ano em que pintei mandalas, me ajudou muito na minha organização
interna e na organização da própria vida.
Não no sentido do controle, porque no processo da pintura,
nós podemos aprender a correr riscos. Esse trabalho é
como a água que permeia tudo e não temos certeza
sobre nenhuma resolução. A cada momento, temos que
dar uma resposta a uma nova questão. E a água é
como o inconsciente. Penetra em todos os espaços e toma
a forma dos lugares em que vai penetrando. Ela não encontra
barreiras porque penetra do jeito que é possível.
Acho que devemos aprender a caminhar junto com os acontecimentos
da vida e isto é o que acontece na pintura: aprendemos
a caminhar junto com aquilo que vai se passando no papel para
poder ver o que vai
Acontecer.
Entrevistadora – Conte um
pouco mais sobre o efeito da Terapia Artística
na sua vida.
Paciente – Todo o meu processo na Terapia
Artística aconteceu em grupo. Então, eu pude observar
o que estava acontecendo comigo e com as outras pessoas também.
Eu vejo que há um respeito muito grande pelo ritmo, pelo
jeito e pelas possibilidades de cada um. Não tem certo,
não tem errado, não tem feio, não tem bonito,
mas tem a expressão de cada um. Esse aspecto é muito
significativo para mim porque é a forma de poder assegurar
a cada um tem um jeito de poder lidar com a proposta e essa é
a realidade. Por mais que eu tenha me cobra, muitas vezes e por
mais que eu tenha tentado fazer determinadas coisas, olhado
alguém e exclamado: ”Poxa, que máximo!”,isso
também me deu uma calma porque eu percebia que aquilo que
eu faço é o meu jeito de ser o poder olhar para
o que fiz e gostar ou não gostar. Eu não acredito
que nós temos que gostar de tudo o que expressamos. Acho
até bom não gostar de tudo porque isso nos empurra
para mudar. Para mudar não no sentido de modelar, mas no
sentido de mudança de postura, de como vou lidar com o
que me incomoda, e sempre por meio da própria expressão.
Eu fui conquistando, na minha vida pessoal, um jeito muito meu,
por mais que, muitas vezes, eu ainda me exija coisas que não
são minhas, A terapia Artística me ajuda a voltar
para um lugar muito importante: “olha, essa é você,
pára com isso”. Não significa que eu não
esteja o tempo todo em movimento, num trabalho com relação
a mim mesma, de crescimento, de relação com o mundo
porque me aceitar como eu sou exige muita atividade interior.
Entrevistadora – Você recomenda a
Terapia Artística? Para quem? Por que?
Paciente – A terapia Artística possibilita
uma permissão da pessoa para ser ela mesma. Na realidade,
nós temos uma construção que vem a partir
de pai e de mãe, a partir da relação com
o outro . Na Terapia Artística também tem um outro,
que é o profissional que dirige o grupo, no caso a Mary.
Mas, por meio da técnica que ela utiliza, ela consegue
dar essa permissão. Então, eu recomendo para todos
porque é uma permissão de ser, de descobrir seu
jeito, seu ritmo, seu tempo e de se expressar a partir disso.
Dentro da Terapia Artística, que eu saiba, também
existe um trabalho com argila. Para algumas pessoas, pelos processos
que estão vivendo, talvez seja extremamente benéfico
começar a mexer em algo mais concreto, mais denso, mais
terra, porque argila é terra, e assim poder estar aqui
na Terra. É uma questão que o próprio terapeuta
artístico vê, reconhece e vai encaminhando. Mas,
sempre é um processo de posse de si mesmo.
Entrevistadora – O que
a arte exige de você e o que ela favorece?
Paciente – Na arte. Por mais que isso seja
relativo, existem os gênios. Mas na Terapia Artística,
trabalhamos com o belo de uma outra forma. Quando falo do belo
estou me referindo às cores, às formas mais variadas
e à tentativa de chegar em algum lugar, que a pessoa considera
o melhor. Naquele momento, quer ela goste ou não. Sempre
há um movimento para chegar. E isso é extremamente
rico e forte. Ir em busca é estar construindo e é
uma tentativa, sempre, de dar o que se tem de melhor. É
um envolvimento muito grande. Isso representa novamente o processo
de vida. Nós vivemos ali uma representação
de um processo de vida. Na vida, os indivíduos podem
passar pelos seus processos inconscientemente. Mas, com a ajuda
da arte, na Terapia Artística. Podemos Ter mais consciência,
o que nos permite usufruir muito mais o que este trabalho oferece.
Entrevistadora – Você está
falando do processo da vida como um processo criativo?
Paciente – Exatamente, como um processo
criativo. Ali, a pessoa está o tempo todo criando sem ter
domínio de tudo, mas tem o domínio de interferir
nas questões porque nós interferimos o tempo todo
no trabalho. Por mais que ele não saia ou não se
construa a partir só do seu desejo, porque o mundo não
é o seu desejo, a pessoa interfere. É uma inter
relação o tempo todo.
|